Os Chabalgoity: mesmo talento, passos diferentes

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Por Nittenis News  •  18 de Abril de 2020
Por Diego Werneck, David Mijalchick e Gustavo Werneck

Todo pai é o primeiro herói do filho. Entre os Chabalgoity não é diferente.

Carlos, 55, conhecido carinhosamente no tênis como Chapecó, não é só pai e herói de Pedro Henrique, 12. É também exemplo: tanto do que deu certo, quanto do que não deu.

Pedrinho, campeão do Banana Bowl e de torneios no exterior, é uma das promessas do tênis brasileiro. Igual foi seu pai nos anos 80.

Carlos Chabalgoity chegou a figurar entre os 300 primeiros da ATP com apenas 19 anos. Mas, assim como a ascensão, a queda também foi rápida. Aos 23 e sem os resultados esperados, ele não resistiu à pressão e desistiu do circuito profissional.

O ex-tenista seguiu carreira como treinador e, com o tempo, se afastou de vez das quadras. Mas decidiu voltar recentemente, graças ao incentivo do próprio filho.

- No primeiro momento que o Pedro começou a se interessar pelo tênis, lá pelos 4 ou 5 anos, eu estava afastado do esporte por uns 6 anos. Comecei a pensar em voltar e trabalhar com crianças. Uma coisa mais prazerosa e de longo prazo.
Carlos começou a treinar Pedrinho e, rapidamente, percebeu o talento do filho: “Com os títulos alcançados aqui e no exterior, esta habilidade diferenciada ficou bem evidente para mim.”

E com as conquistas, vieram as comparações entre as gerações da família brasiliense. Não apenas entre Pedrinho e o pai, mas também com a tia, Cláudia Chabalgoity, campeã pan-americana e ex-102a no ranking da WTA.

É inegável que o tênis está no sangue dos Chabalgoity. Mas Carlos nunca fez disso uma obrigação para o filho. Pelo contrário, sempre deixou o garoto livre para fazer suas escolhas.

Além do tênis, Pedrinho também joga futebol, basquete e surfa. Porém, ao menos por enquanto, a raquete é sua grande paixão: “Até hoje é sempre ele quem pede para ir treinar, seja comigo ou com o Dumont, que é o seu treinador no clube. Eu tenho esta preocupação em não colocar nenhuma pressão nele. Até porque, entendo que ele já se sinta pressionado por saber da minha carreira e intuir que eu possa estar esperando algo parecido”, revela Carlos, que destaca a importância do ensino lúdico, e sem pressão, para a criança. “Se o ambiente não fosse propício, certamente ele iria desistir e partir para o surfe, o basquete ou o futebol”, completa.
Em 2019, Pedrinho liderou o circuito mundial Ten-Pro Global Junior Tours, na categoria 12 anos. O jovem tenista conquistou resultados expressivos fora do país, como títulos nos Estados Unidos e na Espanha. Entretanto, para Carlos, o excesso de vitórias tem um lado negativo.



- Eu uso mais uma vez o meu exemplo: não aprendi a perder quando novo e acabei me iludindo, achando que era só vitória. Ele tem ganhando muito mais do que perdido, isso não é legal. Talvez a gente planeje alguns torneios nas categorias acima para que ele tenha mais experiências de derrota, pois ele tem que passar por isso. (...) Estou procurando os caminhos para ele diferentes dos meus, baseado do aprendizado que tive do que deu e do que não deu certo, principalmente estes últimos.

O sonho de Pedrinho é ser tenista profissional. Carlos, que não esconde o orgulho dos primeiros passos do filho, dá total apoio. Mas destaca que, para ele, o tênis não é o mais importante: “O meu sonho é o sonho de pai, de ter um filho contente e envolvido com coisas saudáveis, ligado à educação e ao esporte. Porque estas coisas caminham juntas.”

Confira a seguir alguns outros trechos da entrevista exclusiva que Carlos Chabalgoity concedeu à Nittenis:

Nittenis – Trace um paralelo entre o início da trajetória do Pedro, já conquistando títulos importantes no Brasil e no exterior, e a sua carreira. Qual a influência da sua referência para ele como ex-tenista, pai e treinador?

Carlos Chabalgoity - Quando o Pedro começou a se interessar pelo tênis, lá pelos quatro ou cinco anos de idade, eu estava afastado do esporte por uns seis anos e comecei a pensar em voltar para o esporte. Isto foi em 2012, 2013, e eu pensei em trabalhar com crianças, uma coisa mais prazerosa e de longo prazo. A partir daí entrei em um escola aqui em Brasília e juntamente com outro professor passamos a dar aulas de tênis em caráter experimental. Neste meio tempo, como eu tinha raquetes e bolas em casa, o Pedro começou a brincar com a bolinha no chão, e não com ela quicando, que é exatamente a metodologia que se usa com crianças desta faixa de idade. Eu comecei a observar uma certa habilidade motora nele e ele por sua vez se interessou e foi participar de uma destas aulas na escola. Ele gostou muito da experiência e começou a pedir para voltar na escola e participar das aulas novamente e brincar com as crianças do tênis.
Nunca tinha pensado em levá-lo para o tênis, inclusive no período em que fiquei afastado não assistia jogos na televisão e portanto ele não tinha acesso, acabei me motivando e o levando para o clube para brincar na quadra. Já com cinco anos e batendo bola comigo na quadra, eu o coloquei na Escolinha Guga, atendendo a seu próprio pedido. Aliás, até hoje é ele sempre quem pede para ir treinar, seja comigo ou com o Dumont, seu treinador no clube. Eu tenho esta preocupação em não colocar nenhuma pressão nele, até porque entendo que ele já se sinta de alguma forma pressionado por saber da minha carreira e intuir que eu possa estar esperando algo parecido por parte dele.
Nos anos seguintes, até seus oito anos mais ou menos, ele sempre me demandava muito para ir pra quadra depois que voltava da escola e eu não correspondia muito, deixando ele se desenvolver apenas a partir da escolinha, que ele fazia duas vezes por semana. Ele começou então a se interessar por outros esportes, sempre demonstrando habilidade motora e se envolvendo com todos eles, o que me fez voltar a participar mais intensa e diretamente com ele no tênis, indo pra quadra sempre que ele pedia. Passei também a me sentir quase que na obrigação de passar para ele toda minha experiência, para que ele pudesse ter conhecimento principalmente do que não fazer, e ajudá-lo a traçar um caminho a seguir.
Com o decorrer do tempo e com os títulos alcançados aqui e no exterior, esta habilidade diferenciada ficou bem evidente pra mim e hoje o cuidado que eu procuro ter é para que ele não siga um caminho muito rápido como foi o meu, que comecei aos 9 anos e aos 11 já tinha sido vice-campeão do Orange Bowl, e depois com 12 de novo. Fico preocupado que ele se mantenha no ambiente de criança com amigos, escola e atividades fora do tênis para que não aconteça que, ainda cedo, ele fique totalmente envolvido com o tênis. Hoje ele joga futebol, basquete, surfa (uma vez por ano, quando vai ao Rio). Eu tento fazer com que esta transição seja mais lenta, em comparação ao que eu vivi, aproveitando também os conhecimentos que adquiri, me inteirando sobre o treinamento de crianças nesta faixa etária. Tratando esta questão da forma mais cuidadosa possível, nem adiantando e nem deixando para trás, atento para que não haja um born out. Enfim, estou procurando pra ele caminhos diferente dos meus, baseado no aprendizado que tive do que deu e do que não deu certo, principalmente estes últimos.



Nittenis – Fale um pouco sobre o trabalho de massificação do tênis que você faz em Brasília, no Instituto Tênis, e como você vê a questão do tênis ainda ser visto como um esporte de elite e pouco praticado no Brasil. Como o Pedro se encaixa no projeto?

Carlos Chabalgoity - Neste meio tempo, as coisas foram se encaixando incrivelmente e eu recebi um convite do Nelson Aerts, do Instituto Tênis, que me procurou para falar sobre um projeto de massificação para crianças dentro do esporte e me convidou para participar. Gostaria de abrir um parêntese para dizer da minha gratidão por ele, pois foi este convite que me trouxe realmente de volta para o tênis e eu tornei a me motivar.
A partir daí eu encarei este projeto de massificação e tive à disposição uma estrutura incrível que existe em Brasília e arredores, com 12 Centros Olímpicos. Com isto eu consegui fazer uma parceria com o governo do Distrito Federal para incluir o tênis como um dos esportes que as crianças de 4 a 9 anos passariam a ter à disposição, aproveitando o sistema já existente em que crianças nesta faixa etária normalmente experimentam vários esportes ao invés de optar especificamente por um só. Na totalidade dos Centros Olímpicos temos hoje mais de quatro mil crianças tendo, pelo menos, vinte aulas de tênis por semana. Isto tudo obedecendo um ensinamento bem lúdico e com mais ou menos vinte alunos por aula. O objetivo principal do projeto é que eles conheçam o tênis e, se gostarem, que nós possamos ajudá-los a seguir no esporte de alguma forma.
Este trabalho vendo sendo desenvolvido desde 2016 e neste período o tênis acabou entrando em um projeto que o GDF já tem, que é o Futuro Campeão. Neste trabalho são promovidas seletivas, duas vezes por ano, com garotos com habilidade motora. Acaba sendo uma coisa meio exclusiva, apenas dentro deste aspecto de capacidade, porque ainda não conseguimos fazer a coisa mais completa e perfeita, ficando de fora ainda aqueles que trazem consigo a vontade e outras qualidades que poderiam levá-los a prosseguir no esporte competitivo.
Desta seleção saem 50 crianças que passam a treinar de três a quatro vezes por semana, de uma hora e meia a duas horas de duração. Esta turma se concentra em um dos Centros Olímpicos, que possuí quadra nas dimensões oficiais, para a primeira etapa de treinamento. Os secionados desta primeira fase passam a treinar diretamente no Instituto Tênis.
Este é o trabalho que estamos desenvolvendo a partir do Instituto Tênis. Hoje, 90% dos que participam dos torneios infantis são do projeto. Temos trinta garotos competindo nos torneios regionais de bolas vermelha, laranja e verde. São meninos do projeto que estão fazendo parte do treinamento específico já dentro do Instituto, acompanhados por profissionais capacitados, que jogam e conhecem bem o esporte, além de terem participado dos treinamentos oficiais promovidos pela CBT. Por outro lado, os professores que atuam nos 12 Centros Olímpicos, onde é feita a iniciação, são formados em Educação Física e recebem treinamento específico para trabalhar com o tênis. Até este momento, já capacitamos mais de 200 professores para este trabalho.
E os resultados vão aparecendo. Em nível Brasil já temos hoje o melhor entre os jogadores de 8 anos e a melhor entre as de 9, fato que considero natural pelo trabalho que vimos realizando nestes quatro anos. São meninos que estão conosco desde o início e que disputam de 10 a 12 torneios regionais por ano. A previsão para 2020 é de levarmos seis garotos para disputar torneios nacionais, pelo Instituto Tênis.
É um projeto que tem me trazido muita motivação e impressiona com os resultados alcançados com as crianças, que são de nível social e econômico mais baixo e que abraçam a oportunidade e se esforçam ao máximo. Os pais por sua vez se sacrificam para levá-las aos treinamentos, pois sabem da importância deste momento para seus filhos e que é difícil de ver nas classes mais altas que são os pagantes de clubes e academias. Neste projeto eles não pagam nada, nem as inscrições dos torneios e tem lanches fornecidos pelo governo, transporte para cada atleta e um acompanhante.
Com o Pedro eu continuo mantendo o treinamento, duas a três vezes na semana, e o restante do tempo ele faz no Iate Clube com o Santos Dumont, que tem me ajudado bastante e que tem um grupo muito bom de treino. Viajo algumas vezes com o Pedro para os torneios e tenho conseguido manter este acompanhamento, que evidentemente não é full time nem tem que ser pois seria exaustivo para os dois. É salutar que ele participe de outro grupo com outro técnico, que siga a mesma linha mas que é sempre bom para ele escutar e acompanhar. Trato também de oferecer as melhores condições de trabalho físico.

Nittenis – Na sua perspectiva como pai, como você vê e sente o seu filho estar competindo no tênis e quais seriam os planos, objetivos e sonhos que você vislumbra para ele? E como professor, enxerga o talento necessário e apostaria no investimento?

Carlos Chabalgoity - O meu sonho é o sonho de pai, de ter um filho contente e envolvido com coisas saudáveis, ligado à educação e ao esporte porque estas coisas caminham juntas e principalmente que nós consigamos, eu e minha esposa, educar o Pedro e nossos outros dois filhos no caminho de um relacionamento com Deus, que prezamos muito. Logicamente que cada um terá o seu resultado dentro do que escolher ou que tiver habilidade para seguir na vida, no caso do Pedro o esporte, no momento o tênis. Este é o sonho dele, foi o que ele colocou no papel e me deu. Então só me cabe alimentar este sonho, mas sempre muito consciente de que primeiro é um sonho dele e que ele não se frustre com este sonho. É importantíssimo ter o sonho, pois é o início de tudo, mas cabe a nós como pais, mais do que como técnico, e aí eu posso fazer os dois papéis, primeiro direciona-lo no sonho, ver qual o melhor caminho a seguir e dentro disto estar orientando e analisando até que ponto este sonho deve ser perseguido. Evidentemente com todo o cuidada para não interferir no sonho, que é dele e que nunca poderemos afirmar se ele vai realizar ou não.
No que sempre nos pautaremos é que estas coisas sempre andem juntas com ele, ou seja a educação, o esporte e o relacionamento com Deus. Isto para nós é um desejo e uma obrigação que temos com os três filhos. É lógico que o Pedro nos demanda um pouco mais por ser o mais novo e estar envolvido com uma atividade muito dinâmica, diferente de uma rotina normal de uma criança, como é caso de nossas outras duas filhas. E ainda temos que cuidar para que nesta atenção mais voltada para o Pedro não nos descuidemos do processo de formação das nossas filhas. É um processo delicado, que estamos sempre atentos mas mesmo assim ainda estamos sujeitos a erros. Em resumo, este é o nosso sonho, meu e de minha esposa com relação aos três filhos, não só com o Pedro. O dele é o dele e ele vai correr atrás e eu vou ser um facilitador desta busca, até porque eu entendo que, como é o sonho dele, vou poder ajudar bastante.




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